Reação adversa à vacinação

Por: Dra. Barbara G. Silva e Dr. Jessé Reis Alves?

A imunização é extremamente importante, pois reduz a mortalidade e a morbidade determinadas por muitas doenças infecciosas. Indivíduos que apresentaram reações adversas são, muitas vezes, erroneamente rotulados como alérgicos e, portanto, acabam por não receber a vacinação adequada ou, mesmo com exames diagnósticos específicos para detectar alergia aos imunizantes ou a um dos seus componentes, não têm a oportunidade de receber as vacinas de maneira segura.

O surgimento de reação de hipersensibilidade tardia a um constituinte da vacina, a exemplo de nódulo ou hiperemia local, não é contraindicação para vacinação subsequente. Na prática, trata-se de reações tardias a produtos que contêm neomicina, timerosal e alumínio.

A reação anafilática à vacinação pode ocorrer em 1:1.000.000 de doses aplicadas e implica o encaminhamento do paciente ao alergista/imunologista. Nessas situações, o agente causador precisa ser encontrado para diminuir o risco em imunizações futuras com o mesmo ingrediente.

Componentes de risco
As reações IgE-mediadas às vacinas são causadas pelos seus componentes, como gelatina e proteína do ovo.

A gelatina funciona como estabilizante de imunizantes como tríplice bacteriana, tríplice viral, antirrábica e vacinas contra varicela, febre amarela e herpes-zóster. De qualquer modo, vale ponderar que isso varia de acordo com o fabricante.

Entre as vacinas que possuem proteínas do ovo na sua composição estão a tríplice viral (cuja quantidade é muito pequena), a anti-influenza (cujo volume proteico varia de lote a lote, podendo chegar até 42 ?g/mL) e o imunizante contra febre amarela.

A contraindicação a pacientes alérgicos depende justamente da quantidade de proteína do ovo presente na vacina. Produtos com menos de 1,2 ?g/mL desse conteúdo proteico podem ser administrados a esse grupo, desde que inicialmente sejam aplicados 10% do frasco (0,05 mL) e, após 30 minutos, os 90% restantes (0,45 mL), sempre com suporte médico e com a retenção do paciente por meia hora após a administração da vacina, para monitorar eventuais efeitos.

Alguns imunizantes possuem também leveduras na sua composição, como a Saccharomyces cerevisiae, presente nas vacinas contra hepatite B e HPV, podendo, raramente, causar reação.

Outros produtos, dependendo do fabricante, têm látex, seja no frasco, seja na seringa, como a tríplice bacteriana (Infanrix®, seringa), a antirrábica, a meningocócica (frasco), a TDAP (seringa ou frasco, dependendo da marca) e as vacinas contra H. influenzae/Hib (frasco), hepatite A (Havrix®, seringa), hepatite B (Engerix®, seringa) e febre amarela (frasco). Por outro lado, é possível afirmar que não há traços de látex na tríplice viral, na pneumocócica (23 e 7-valente) e nas vacinas contra influenza, varicela e HPV.

Diante disso, a história de reações anteriores a vacinas e de alergias alimentares, notadamente ao ovo e à gelatina, já é motivo para encaminhar o paciente ao alergista/imunologista antes da introdução de qualquer novo esquema vacinal.

Convém lembrar que a alergia ao ovo pode não ser valorizada como tal, já que alguns indivíduos alérgicos a esse alimento cru, que o toleram quando cozido, nem sempre referem essa alergia. Daí a necessidade de conduzir cuidadosamente a entrevista pré-imunização.

Reações vacinais
Existe a probabilidade de ocorrência da síndrome de Guillain-Barré (SGB) após a vacinação contra o influenza. Quando os sintomas surgem seis semanas depois da aplicação, o paciente não deve recebê-la novamente porque a SGB prévia aumenta o risco de novo episódio.

A tríplice viral, por sua vez, pode causar rash transitório, febre (5-12 dias após vacinação), trombocitopenia e artrite aguda em mulheres (15%). Nenhum desses eventos, porém, constitui contraindicação.

O componente pertússis da tríplice bacteriana é capaz de determinar encefalopatia sete dias após a aplicação, que cursa com perda de consciência, irresponsividade e convulsão, podendo persistir por horas. A frequência dessa reação, que configura contraindicação absoluta a essa vacina, é da ordem de 10:1.000.000 de doses aplicadas. Contudo, com a administração da tríplice acelular, houve diminuição na ocorrência da encefalopatia.

O toxoide tetânico, a seu turno, pode produzir edema local, SGB e neurite braquial, com dor no ombro e fraqueza.

Já a vacina contra a varicela tem chance de provocar reações locais, tipo varicela, em 3% dos casos e reações generalizadas em outros 3%. Por outro lado, nas crianças com dermatite atópica, é possível aplicá-la sem risco de complicações da doença.

Há possibilidade de a vacina contra febre amarela causar encefalite, cujo risco é de 4:1.000 crianças. Assim, não deve ser aplicada em menores de 4 meses e, entre os 4 e os 9 meses, só está indicada se o risco de infecção for muito alto. Na prática, o imunizante é recomendado apenas para os indivíduos que moram em regiões endêmicas ou viajarão para esses locais.

Cuidados especiais
Em relação aos cuidados com grupos especiais de pacientes, vale destacar as grávidas e os imunodeprimidos. As gestantes não devem receber vacinas vivas atenuadas e podem ser imunizadas contra o influenza, a hepatite B e o tétano. Já para os indivíduos imunocomprometidos, por doença ou uso de imunossupressores, também não se recomenda a aplicação de vacinas feitas com agentes virais vivos.

Por fim, convém lembrar que não existem evidências da associação das vacinas com atopia, autismo e esclerose múltipla.

Fonte: http://www.fleury.com.br/