Investigação e diagnóstico de esofagite eosinofílica

Por: Dra. Marcia Wehba Esteves Cavichio, Dra. Barbara Gonçalves da Silva e Dra. Fernanda Aimée Nobre?

A esofagite eosinofílica (EoE) é uma doença crônica imunomediada, caracterizada pela infiltração de eosinófilos na mucosa do esôfago – há presença de 15 ou mais eosinófilos por campo de grande aumento – e associada a sintomas semelhantes à doença do refluxo gastroesofágico, refratários às medidas antirrefluxo.

Incidência e prevalência

A incidência anual é de 12,8 casos por 100.000 habitantes e a prevalência, de 43/100.000. A doença atinge sobretudo o sexo masculino. Nos adultos, acomete a terceira e quarta décadas de vida, embora possa ocorrer em qualquer faixa etária. A prevalência de atopia entre esses pacientes é elevada, chegando a 81% em alguns estudos.

Quadro clínico

Os sintomas variam de acordo com a faixa etária, manifestando-se, em lactentes, por recusa alimentar, irritabilidade, vômitos e déficit ponderostatural; em crianças, por dor abdominal, vômitos, sintomas de refluxo gastroesofágico, aversão à alimentação e também déficit de ganho de peso e crescimento; em adolescentes, por disfagia, impacto alimentar no esôfago, náuseas, sintomas de refluxo e dieta bem limitada; e, em adultos, por disfagia e impacto alimentar no esôfago.

Existe um subgrupo de pacientes com sintomas típicos de EoE, mas sem refluxo gastroesofágico e com melhora clínica com inibidores de bomba de prótons (PPI), os quais são denominados portadores de EoE responsiva a PPI. Muitos ainda apresentam doenças alérgicas associadas, causadas por alimentos e aeroalérgenos, que afetam 28-86% dos adultos e 42-93% das crianças.

Diagnóstico

A doença é diagnosticada por meio da história clínica e de exames complementares, como a endoscopia digestiva alta com biópsia, que mostra a presença de eosinófilos apenas na mucosa esofágica, respeitando as mucosas do restante do trato digestivo.

Essa biópsia deve cobrir os três terços do esôfago, independentemente da presença ou não de alterações macroscópicas, como estrias longitudinais, friabilidade, edema, placas ou exsudatos esbranquiçados, traqueização do esôfago (anéis concêntricos), mucosa em “papel-crepom”, estreitamento proximal e ausência da rede vascular. Embora tais achados não sejam patognomônicos, a presença de um deles em paciente com disfagia e/ou impacto alimentar leva a pensar em EoE, ainda que, em 30% dos casos, possa não haver alteração macroscópica.

Embora a detecção de eosinófilos seja importante para o diagnóstico, ainda existem limitações, pois não há padronização quanto ao tamanho do campo e, muitas vezes, os estudos não mencionam esse parâmetro. Daí a importância da correlação entre os achados histopatológicos da biópsia de esôfago e a história clínica.
Outros métodos diagnósticos, como a radiografia (EED) e a mensuração da IgE total, não são feitos rotineiramente na investigação desses casos. Por outro lado, recomenda-se a pH-metria para os indivíduos com suspeita de refluxo gastroesofágico.

Os testes cutâneos e a mensuração da IgE específica estão indicados para a identificação dos alérgenos alimentares implicados na etiologia da doença, de forma a definir quais alimentos serão eliminados da dieta e a ordem de reintrodução .

Diagnósticos diferenciais

Além da doença do refluxo gastroesofágico e da alergia alimentar, são considerados, no diagnóstico diferencial, a doença de Crohn, a síndrome hipereosinofílica, a gastroenterite eosinofílica, a estenose esofágica, a esofagite iatrogênica, as infecções (virais, por herpes ou citomegalovírus, e fúngicas, por Candida albicans) e as doenças do tecido conjuntivo.

Tratamento

Os pacientes com EoE podem ser tratados com medidas dietéticas e com medicamentos. Em situações extremas e de emergência, como impacto alimentar ou estenose esofágica graves, há indicação de tratamento endoscópico.

A dieta deve ser feita com a eliminação do alérgeno envolvido, quando conhecido, ou com a utilização de uma fórmula de aminoácidos, que parece ser eficaz na indução de remissão clínica e histológica da doença. É importante, à semelhança da alergia alimentar, encaminhar os indivíduos para avaliação com um nutricionista.

O tratamento farmacológico, por sua vez, compreende o uso de corticoide inalatório deglutido – com o paciente permanecendo sem comer ou beber por 30 minutos após a deglutição –, bem como o emprego de inibidores de bomba de prótons. Os bloqueadores de receptores dos leucotrienos também podem ser utilizados.

A dilatação esofágica é útil em doentes muito sintomáticos, com estreitamento do esôfago secundário a estenoses fixas, que causam impacto alimentar, e que não tenham obtido melhora com a dieta e o corticoide deglutido.

Fonte: http://www.fleury.com.br/