Ecocardiograma

Por: Dr. Valdir A. Moisés e Dr. Cristiano Vieira Machado?

O ecocardiograma é um método ultrassonográfico de imagem cardíaca, já consagrado para uso clínico, que pode ser realizado em fetos, crianças e adultos para diagnóstico, quantificação e seguimento em diversas situações clínicas. O exame convencional, feito por via transtorácica, pode ser complementado pela técnica sob estresse ou pela via transesofágica, cada qual com suas indicações e limitações. Novas tecnologias incorporadas à ecocardiografia aumentaram sua capacidade diagnóstica e possibilitaram a obtenção de parâmetros mais precisos, inclusive para a análise do sincronismo ventricular.

Ecocardiograma transtorácico convencional

Em crianças, essa modalidade de ecocardiograma é indicada em suspeitas de doença cardíaca congênita ou adquirida e em casos de sopros cardíacos, arritmias, cianose e cansaço, sempre para diagnóstico, avaliação de gravidade ou acompanhamento. Outras indicações incluem doenças sistêmicas, quimioterapia, endocardite infecciosa e febre reumática. Crianças pequenas, particularmente entre 5 e 30 meses, podem necessitar de sedação para permitir o exame. Usualmente as imagens apresentam boa qualidade, mas pode haver limitações, o que dificulta a realização do ecocardiograma e sua interpretação.

Em adultos, a utilização do exame é ampla, incluindo doenças miocárdicas, valvares, pericárdicas e da aorta, além das descritas acima. O ecocardiograma convencional, com frequência, é indicado para avaliar a hipertrofia dos ventrículos, as funções sistólica e diastólica e a pressão pulmonar. Limitações da qualidade das imagens ocorrem mais frequentemente em adultos do que em crianças, em particular em pacientes com deformidades torácicas, em obesos ou em pessoas com tórax grande, em pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica, em indivíduos muito magros ou, ainda, em algumas mulheres com prótese de mama.

Nos últimos anos, novas técnicas foram introduzidas ou estão em desenvolvimento, particularmente na análise do volume e da função ventricular. Para a função sistólica, além da fração de ejeção, outros métodos, como a análise da velocidade sistólica miocárdica pelo Doppler tecidual e, mais recentemente, as medidas do strain miocárdico pelas técnicas de Doppler tecidual ou speckle tracking, parecem facilitar o diagnóstico de disfunção subclínica.

Para a função diastólica, a partir de dados do Doppler convencional e tecidual, pode-se caracterizar de forma precisa a (dis)função diastólica. Deve-se destacar a relação entre a onda E do fluxo mitral e a onda e’ do movimento do anel mitral (relaçãoE/e’), que possibilita estimar a pressão de enchimento do ventrículo esquerdo, sendo particularmente útil na caracterização e na avaliação de pacientes com insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada.

O ecocardiograma tridimensional, ou eco 3D, que deve ter solicitação específica, apresenta acurácia comprovada e está indicado na avaliação dos volumes ventriculares e fração de ejeção, com ótima correlação de resultados com a ressonância magnética cardíaca. Além disso, o eco 3D permite uma avaliação anatômica precisa em pacientes com doenças da valva mitral (prolapso e afecção reumática) e da valva aórtica.

Com a introdução da terapia de ressincronização cardíaca para pacientes com insuficiência cardíaca grave (classe funcional III ou IV com tratamento otimizado, fração de ejeção abaixo de 35%, ritmo sinusal e duração do QRS no eletrocardiograma >150 ms), sugere-se avaliar o grau de dissincronia por métodos de imagem se o QRS estiver entre 120 e 150 ms. Isso pode ser feito pela ecocardiografia com as técnicas de Doppler tecidual ou pelo ecocardiograma tridimensional. Por este último, um índice pode ser automaticamente obtido e valores acima de 11% são indicativos de dissincronia, mas geralmente associada com boa resposta à terapia.

Ecocardiograma transesofágico

Esse exame usa uma sonda com transdutor na extremidade, que é inserida no esôfago sob analgesia da orofaringe e sedação. Fica reservado para as situações em que o exame transtorácico não obtém imagem adequada para afastar ou confirmar uma doença. As principais indicações incluem pesquisa de trombos no átrio ou apêndice atrial esquerdo (fonte emboligênica), endocardite infecciosa, doenças da aorta, doenças da valva mitral e anomalias do septo atrial e das veias pulmonares. Tal modalidade de ecocardiograma tem aplicação importante na monitoração intraoperatória de cirurgia cardíaca e, eventualmente, não cardíaca, assim como de procedimentos percutâneos em Cardiologia.

Ecocardiograma sob estresse

O exame está indicado principalmente na investigação de isquemia e/ou viabilidade miocárdica, assim como em doenças valvares ou miocárdicas, para avaliar reserva miocárdica. O estresse pode ser farmacológico, com dobutamina, dipiridamol ou adenosina, ou por esforço físico. O exame para a pesquisa de isquemia deve ser evitado nos pacientes com síndrome coronariana aguda, hipertensão arterial não controlada, arritmias frequentes ou taquiarritmias sustentadas, estenose aórtica grave ou miocardiopatia hipertrófica. As principais limitações são as mesmas do ecocardiograma transtorácico descritas anteriormente.

Ecocardiograma fetal

O ecocardiograma fetal permite a avaliação da anatomia e da fisiologia do coração do feto, assim como do ritmo cardíaco, sendo realizado preferencialmente entre a 18a e a 32a semana gestacional. Devido à baixa incidência de cardiopatias congênitas (1% dos nascidos vivos), preconiza-se o uso do exame principalmente nas gestações consideradas de alto risco. Contudo, como dentre as malformações congênitas, as cardíacas são as mais frequentes, vários grupos advogam a realização do método rotineiramente.

De qualquer forma, as principais indicações do ecocardiograma fetal incluem suspeita de malformação cardíaca ao ultrassom obstétrico, história de filho anterior com cardiopatia congênita ou história familiar de cardiopatia congênita, conceptos com malformações extracardíacas, fetos com alto risco de apresentar síndromes cromossômicas (como idade materna avançada e translucência nucal aumentada no primeiro trimestre), presença de doenças maternas como diabetes, lúpus eritematoso sistêmico ou outras colagenoses, uso de drogas potencialmente teratogênicas pela gestante (anticonvulsivantes, lítio, álcool e contraceptivos orais), assim como de indometacina, aspirina, anti-inflamatórios e outros medicamentos que agem no metabolismo das prostaglandinas, infecções virais ou parasitárias maternas (rubéola, citomegalovírus e toxoplasmose), alterações do ritmo cardíaco fetal, história de perdas fetais anteriores, retardo do crescimento intrauterino e hidropisia fetal não imune.

A qualidade do exame pode ser limitada pela mobilidade fetal (tanto a hipo quanto a hipermobilidade) e pela posição do concepto. Nos exames próximos ao término da gestação, a ossificação das costelas e dos corpos vertebrais pode dificultar a obtenção de imagens adequadas, principalmente se o feto estiver com o dorso anterior. Outros fatores dificultam a realização do exame com precisão, como obesidade materna, edema fetal importante, polidrâmnio e oligoâmnio.

Fonte: http://www.fleury.com.br/