Check-up do idoso

Por: Dr. Nelson Carvalhaes Neto?

A prevenção de doenças é parte integrante da prática médica e se dá em três níveis. A prevenção primária consiste nas ações que visam à remoção ou à redução de fatores de risco (vacinação, campanhas anti-fumo, estímulo ao exercício). A prevenção secundária tem como objetivo o diagnóstico precoce de doenças em uma fase pré-clínica na qual os sintomas ainda não apareceram (procedimento comumente chamado de "Check-Up"). Por fim, a prevenção terciária é o conjunto de ações dirigidas a portadores de doenças já estabelecidas com o intuito de limitar seu impacto.

O Check-Up se ocupa da detecção precoce de doenças através da utilização de testes diagnósticos com eficácia comprovada. Nem todas as doenças são passíveis de screening e nem todos os testes se prestam a esse fim. Portanto, é importante que se reconheçam quais doenças devem ser rastreadas em cada indivíduo e quais os melhores meios para se alcançar esse objetivo. Para tanto é fundamental o estabelecimento do perfil de risco de cada cliente, através da análise de seus antecedentes pessoais, familiares, e seus hábitos de vida. Prescrevendo testes diagnósticos de acordo com as características de cada indivíduo aliamos excelência diagnóstica e otimização dos custos.

O envelhecimento é o fenômeno demográfico mais importante da atualidade, dadas as suas conseqüências sociais, econômicas e médicas. Hoje temos muito claro que o compromisso dos profissionais de saúde deve ser o de procurar promover o envelhecimento bem sucedido, em detrimento do envelhecimento com fragilidade. O idoso que tem suas capacidades funcionais preservadas mantém-se independente e com boa qualidade de vida. Por outro lado, o idoso que evolui com incapacidade e dependência demanda cuidados crescentes, geradores de sofrimento e alto custo social.

A promoção do bom envelhecimento e a prevenção da fragilidade se dão nos três níveis citados acima. A vacinação dos idosos é uma realidade em nosso meio, o mesmo podendo ser dito das campanhas de incentivo ao envelhecimento ativo. O exemplo mais claro de prevenção terciária dirigida aos pacientes idosos é a reabilitação daqueles portadores de condições estabelecidas, reunindo o esforço de profissionais médicos e não médicos (fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, dentre outros). A gestão de doenças crônicas ("disease management") tais como diabetes, insuficiência cardíaca e DPOC, vem ganhando destaque na literatura médica e também constitui uma maneira importante de intervenção em nível terciário. Quanto à prevenção secundária, a indicação de testes de screening para indivíduos idosos suscita questões: Vale a pena prescrevê-los? Existe uma idade limite para a indicação desses exames?

Um brasileiro tem uma expectativa média de vida ao nascer de 70 anos. Quando chega aos 70 anos, a expectativa é de que viva mais 12 anos, os quais idealmente devem ser vividos livres de incapacidade e de dependência. Portanto, não devemos, baseados somente na idade cronológica, privar nossos clientes idosos dos benefícios das ações preventivas. A análise das comorbidades e do status funcional nos ajuda a julgar com mais propriedade a indicação das ações preventivas.

Recentemente levantamos os dados de 29 clientes idosos (65 a 83 anos) que procuraram nosso serviço, todos eles ativos, a maioria executivos de empresas. Essa análise nos mostra que as treze condições mórbidas mais freqüentes nesse grupo têm prevalências semelhantes às observadas no grupo de indivíduos mais jovens (50 a 55 anos), com destaque para as condições associadas à síndrome metabólica (sobrepeso e obesidade, sedentarismo, hipertensão, dislipidemia e glicemia alterada). Isso mostra que o perfil de morbidade do idoso bem-sucedido difere pouco daquele observado nos adultos mais jovens e nos faz crer que devemos prescrever aos clientes idosos ativos uma conduta de prevenção secundária semelhante àquela indicada para o adulto. É importante salientar que tal conduta não é respaldada em ensaios clínicos prospectivos controlados, uma vez que os indivíduos idosos são, via de regra, pouco representados nesses estudos.

As condições mais relevantes no idoso são as doenças cardiovasculares e seus fatores de risco, e as neoplasias. Os fatores de risco cardiovascular modificáveis clássicos- hipertensão arterial, dislipidemias, diabetes, sobrepeso, sedentarismo e tabagismo- devem ser rastreados através do exame clínico e de exames complementares, em que pese a ausência de evidências de que sua correção em idades mais avançadas traga benefício. O eletrocardiograma de esforço tem seu lugar no screening da doença arterial coronária e na avaliação funcional do indivíduo idoso. A palpação abdominal e eventualmente a ultra-sonografia de abdome são importantes para o rastreamento do aneurisma de aorta abdominal. Com relação às neoplasias, os dados mais robustos quanto à utilidade de seu screening em idosos dizem respeito aos cânceres de mama e cólon. As diretrizes mais atuais preconizam o exame clínico da mama e a mamografia anuais, além da realização periódica de algum teste para a detecção do câncer de cólon inicial e/ou dos pólipos intestinais benignos que antecedem o câncer (pesquisa de sangue oculto nas fezes, retossigmoidoscopia ou colonoscopia). Quanto ao câncer do colo do útero, o screening através da colpocitologia oncótica deve cessar aos 65 anos quando existirem repetidos exames anteriores normais. O screening do câncer de próstata no homem idoso através do toque retal e da dosagem do PSA é bastante controverso. A inspeção da pele e da cavidade oral, além da palpação da tiróide, são condutas importantes no rastreamento de neoplasias. Outras doenças devem ser pesquisadas no indivíduo idoso assintomático, tais como glaucoma (através de tonometria, campimetria e fundoscopia), deficiência visual, deficiência auditiva (idealmente através de uma audiometria), distiroidias (através da dosagem do TSH), doenças infecciosas e/ou sexualmente transmissíveis e osteoporose (através da densitometria nas mulheres e em homens com fatores de risco).

A Geriatria, especialidade médica cujo objetivo é a atenção ao paciente idoso, difere da Medicina Interna, sobretudo pelo fato de oferecer uma abordagem funcional. Portanto, além da pesquisa de doenças, é importante que os idosos sejam rastreados quanto à existência de "síndromes geriátricas" que, muitas vezes, são incorretamente entendidas como fazendo parte do envelhecimento normal. São elas: distúrbios da marcha, quedas, deficiências cognitivas, depressão e ansiedade, distúrbios do sono, incontinência urinária, distúrbios da mobilidade, dificuldades para a realização das atividades da vida diária, emagrecimento, disfunção sexual, isolamento, dentre outras. Uma vez identificadas pelo exame clínico, devem ser devidamente investigadas e tratadas através da ação coordenada dos profissionais competentes.

Fonte: http://www.fleury.com.br/