Avaliação funcional e prognóstica na insuficiência cardíaca por meio do teste cardiopulmonar

Por: Dr. Antonio Sérgio Tebexreni , Dr. Alexandre Novakoski F. Alves, Dra. Floriana Bertini Abreu e Dr. João Manoel Rossi Neto?


O teste cardiopulmonar (TCP) é um método propedêutico que permite estudar de maneira global a capacidade cardiorrespiratória do paciente, uma vez que reflete a função do sistema de transporte de oxigênio em sua totalidade, desde as trocas gasosas pulmonares até os níveis de consumo de oxigênio e produç?ão de gás carbônico na musculatura esquelética. Por meio da análise de variáveis clínicas, eletrocardiográficas, hemodinâmicas e respiratórias, são mensurados os ajustes cardiovasculares e respiratórios desencadeados pelo exercício, necessários para a manutenção do metabolismo celular adequado às demandas impostas pela atividade física.

Os dados objetivos produzidos pelo método são fundamentais para a avaliação funcional de pacientes com insuficiência cardíaca (IC), uma vez que possibilitam avaliar seu grau de limitação para o exercício, além de contribuírem para o diagnóstico diferencial com outras causas de dispneia e fadiga. O TCP é um exame útil para a classificação de gravidade da doença, oferecendo ainda informações prognósticas fundamentais para a identificação de candidatos a transplante cardíaco ou outras terapias avançadas. Ademais, facilita a prescrição de exercícios físicos de reabilitação e o controle da resposta ao tratamento.

Entre as variáveis estudadas pelo teste, o pico de consumo de oxigênio (PVO2) – obtido durante o exercício máximo assintomático e expresso em mL/kg – é considerado a medida objetiva mais importante para determinar a capacidade de exercício em pacientes com IC, permitindo a estratificação de risco e o planejamento terapêutico. Diversos estudos demonstraram que pacientes com menor PVO2 apresentam pior sobrevida em relação àqueles que o mantêm acima dos valores de corte estabelecidos. Por outro lado, demonstrou-se que o transplante cardíaco pode ser postergado com segurança naqueles que não apresentam PVO2 diminuído na vigência de tratamento farmacológico adequado e contínuo. É importante ressaltar que o valor preditivo dessa medida é influenciado por sexo, idade, condicionamento físico e composição corporal do paciente, o que levou alguns autores a sugerirem que a utilização de fatores de correção para a massa magra e de valores percentuais em relação aos previstos tem melhor desempenho para estratificar o risco.

Um importante fator limitante para a mensuração do PVO2 é a dificuldade que o paciente com IC pode apresentar para aproximar-se do exercício físico máximo. Nessa situação, são fundamentais e decisivas as medidas expiratórias como a relação entre o dióxido de carbono produzido e o oxigênio consumido (RQ), a inclinação do equivalente respiratório de gás carbônico (VEVCO2 slope) e o padrão da ventilação-minuto (VE).

A VEVCO2 slope é uma relação entre a VE e o volume exalado de CO2 (VCO2 ), que representa quantos litros de ar são inalados para que haja a eliminação de um litro de dióxido de carbono. Alguns autores sugerem que essa medida pode ser mais apropriada para a avaliação funcional na IC, uma vez que – diferentemente do PVO2 – não requer esforço máximo. Os estudos demonstraram que uma relação aumentada indica pior evolução do paciente e que, à medida que a VEVCO2 slope aumenta, cresce a mortalidade.

Com base nessas variáveis, alguns parâmetros foram estabelecidos para a estratificação de risco em pacientes com IC por meio da avaliação funcional com TCP:

• A PVO2 ?10 mL/kg/min identifica pacientes de alto risco. A relação entre o dióxido de carbono produzido e o oxigênio consumido (RQ) contribui para a avaliação prognóstica, uma vez que os pacientes que apresentam RQ ?1,15 têm risco maior em relação àqueles com valores menores de RQ, cujo prognóstico é comparável ao de indivíduos com melhor capacidade funcional.

• A PVO2 entre 10 e 18 mL/kg/min indica risco cardíaco moderado. Nessa situação, a VEVCO2slope >35 permite identificar os pacientes com pior prognóstico.

• A PVO2 >18 mL/kg/min é compatível com bom prognóstico em longo prazo.
Dessa maneira, o TCP oferece ao clínico informações valiosas que, adequadamente aplicadas e interpretadas, otimizam o manejo da insuficiência cardíaca em sua complexidade.


Dessa maneira, o TCP oferece ao clínico informações valiosas que, adequadamente aplicadas e interpretadas, otimizam o manejo da insuficiência cardíaca em sua complexidade.

Fonte: http://www.fleury.com.br/