Avaliação das cardiomiopatias - A contribuição da ressonância magnética cardiovascular

Por: Dr. Gilberto Szarf, Dr. Ibraim M. Pinto, Dr. Walther Y. Ishikawa , Dr. Afonso A. Shiozaki?


As doenças do miocárdico, as cardiomiopatias, vêm representando um diagnóstico crescente na prática cardiológica, tendo, em geral, como via comum final, a insuficiência cardíaca, que apresenta taxas de crescimento epidêmicas no Brasil e no mundo. Além da cardiomiopatia secundária à doença coronariana, o diagnóstico de outras etiologias de cardiomiopatia se constitui num desafio constante para o cardiologista, entre elas a cardiomiopatia hipertrófica, a cardiomiopatia dilatada, a miocardite, a cardiomiopatia chagásica, a cardiomiopatia restritiva (amiloidose, endomiocardiofibrose), a cardiomiopatia ou displasia arritmogênica do VD e a cardiomiopatia por depósito de ferro miocárdico por hemocromatose, talassemia ou outras causas de sobrecarga de ferro, além de outras cardiomiopatias.

Um dos motivos para o aumento desses diagnósticos está na melhora dos métodos diagnósticos específicos, em especial a ressonância magnética cardiovascular (RMC), um exame não invasivo, extremamente acurado e versátil para a avaliação anatômica e funcional do coração e vasos sanguíneos e sem uso de radiação ionizante. Recentes avanços na RMC permitem hoje caracterizar vários aspectos do tecido miocárdico que se correlacionam com alterações fisiopatógicas associadas com as diversas cardiomiopatias, como o edema miocárdico (técnica de imagem pesada em T2) e a fibrose miocárdica (técnica de realce tardio). A RMC possibilita também quantificar a sobrecarga de ferro miocárdico pela técnica de cálculo do T2* (lê-se: tê dois estrela).

De forma breve, a fibrose miocárdica e seu padrão (forma, localização, extensão e concentração) sugerem a etiologia da cardiomiopatia e, na maioria delas, associa-se a pior prognóstico e à maior frequência de arritmia cardíaca. Exemplos clássicos são a fibrose juncional da cardiomiopatia hipertrófica, a fibrose mesocárdica da miocardite e da cardiomiopatia dilatada, a fibrose lateral basal e apical da doença de Chagas, a fibrose global subendocárdica da amiloidose e a fibrose apical da endomiocardiofibrose.

O edema miocárdico pode também ser identificado pela RMC e sugerir inflamação miocárdica, em particular nos casos de miocardite viral recente. Por sua vez, a capacidade de detectar, na fase inicial, a sobrecarga de ferro miocárdico pode levar ao início precoce da terapia e evitar evolução para disfunção ventricular esquerda grave nos indivíduos com hemocromatose e talassemia, melhorando sua sobrevida.

Em resumo, a RMC combinada a outros métodos de imagem, como a ecocardiografia, os exames de Medicina Nuclear e a tomografia computadorizada cardiovascular, podem, de forma integrada, fornecer um diagnóstico mais preciso e precoce das cardiomiopatias, que, quando associadas à insuficiência cardíaca, têm elevada morbimortalidade na prática cardiológica. Essa abordagem integrada pode permitir o início precoce e eficaz da terapia apropriada.

Fonte: http://www.fleury.com.br/