Aids e Dislipidemia

Por: Dra. Graziela Lanzara?

O manejo dos pacientes com infecção pelo HIV tem passado por profundas transformações nos últimos dez anos, desde que o esquema anti-retroviral de alta potência, popularizado como “coquetel”, se estabeleceu como o tratamento de excelência da infecção. Com ele, houve redução significativa das complicações decorrentes da infecção pelo HIV e aumento substancial na expectativa de vida dos pacientes infectados. Esta nova era da epidemia trouxe novos desafios, destacando-se as complicações cardiovasculares.

A incidência de distúrbios do metabolismo de lípides é maior nesta população, pois a própria infecção pelo HIV está associada à hipertrigliceridemia, níveis menores de HDL, anormalidades na distribuição da gordura corporal e aumento da resistência à insulina. Todas estas disfunções são potencializadas pela terapia anti-retroviral combinada, em especial pelos inibidores de protease. Como resultado, observamos que de 33% a 82% dos pacientes em uso desta classe de anti-retrovirais apresentam dislipidemia mista, sendo que destes, 43% a 66% têm hipertrigliceridemia grave (> 500 mg/dL).

A prescrição de hipolipemiantes, quando inevitável, deve ser feita com atenção especial, pois alguns anti-retrovirais afetam a função do citocromo 3A4 (CYP 3A4), que é a rota primária de metabolismo da maioria as estatinas. Este é o motivo pelo qual se dá preferência à pravastatina e atorvastatina na combinação com a terapia anti-retroviral, uma vez que estas drogas não utilizam a CYP3A4 e, pelo mesmo motivo, é terminantemente contra-indicado o uso de sinvastatina e lovastatina, que atingem facilmente níveis séricos tóxicos.

Finalmente, é importante ressaltar que a prioridade no tratamento dos pacientes infectados pelo HIV ainda é a estabilização imunológica, o controle das doenças oportunistas e a manutenção das profilaxias adequadas.

Fonte: http://www.fleury.com.br/